O CALDEIRÃO POLÍTICO DE VAIDADES E IRRESPONSABILIDADES

Imagem do fatídico jogo em Volta Redonda que mandou o Ferroviário de volta para a Série D

Há cerca de dois meses, um velho filme prometia entrar novamente em cartaz e isso foi prognosticado aqui no blog. Os conhecidos e tortuosos bastidores corais ferveram, como há tempos não se via, e o caldeirão político de vaidades e irresponsabilidades entrou em erupção como um vulcão. Essa semana, depois de quatro anos, o Ferroviário caiu para a Série D. É o primeiro rebaixamento brasileiro do clube na competição da CBF, apesar do descenso nacional sacramentado em 2008 via Estadual, conforme estabelecia o regulamento da época, que arremessou o time coral para jogar a Série D, pela primeira vez, a partir de 2009. Infelizmente, estaremos lá em 2023, novamente. De bate-pronto, é preciso diagnosticar que a gestão de futebol do clube cometeu equívocos durante as últimas temporadas que foram determinantes para a debacle coral em campo, notadamente desde que o presidente Newton Filho alegou ter sido obrigado a assumir as rédeas do setor, no início de 2021. Porém, essa questão é apenas o início da discussão.

Vitória contra o Aparecidense após uma falsa onda de renovação encheu de esperanças o torcedor

No final do ano anterior, um “racha” entre o presidente e seu vice Francisco Neto, coincidentemente o mandatário coral no descenso nacional de 2008, garantiu pelos dois anos subsequentes um festival de incômodos, instabilidade, perda de foco, divisões internas e quase as vias de fato. À frente da gestão de futebol, ladeado pelo investidor Artur Boim, Newton Filho assumiu o controle e foi responsável direto pelo bônus e pelo ônus a partir de suas ações. Escanteado, coube a Francisco Neto espernear e procurar acolhida junto ao presidente do Conselho Deliberativo do clube. Nesse contexto, a fórmula para o rebaixamento estava pronta e envolveu os sucessivos erros nas contratações, além de conspirações e episódios de traições e puxadas de tapete no âmbito político, que levaram à renúncia do primeiro e ao empoderamento do segundo nos últimos 40 dias. Figuras reconhecidamente essenciais no soerguimento do clube desde 2017, ambos saem politicamente desgastados da cisão gerada a partir de suas próprias convicções e atitudes no futebol. E assim o Ferroviário retorna novamente para o tão conhecido fundo do poço.

Jogadores trazidos por um dirigente terminaram a competição dirigidos por terceiros e aventureiros

No meio da competição mais importante da temporada, a forçada e trágica reorganização interna contou até com pessoas inexperientes em funções diretivas, em total contradição à profissionalização exigida pelo próprio Conselho Deliberativo. Ficamos com cara de time amador! Com 7 jogos pela frente e 21 pontos a disputar, o Ferrão mergulhou ladeira abaixo e a tentativa vergonhosamente antecipada de personalização do fracasso junto a um só nome, além da covardia do ato em si, denuncia o caminho da conspiração política verificada nos complicados bastidores corais. Engana-se quem acha que um rebaixamento é obra e arte de uma ou duas pessoas. Uma tragédia no futebol é fruto de um ambiente político apodrecido, composto de pessoas que, gestão após gestão, se perpetuam dentro do clube como autênticos donos de araque, e “remam” conforme os interesses de cada ocasião. Foram sete anos de convivência diária entre a maioria na direção do clube, onde muitos já se conheciam das arquibancadas. Nos últimos tempos, alguns contingencialmente mudaram de opinião e de lado, provando que o ambiente no futebol reúne desde pessoas vaidosas às volúveis e traiçoeiras. Ao apontarem o dedo para o ex-presidente, esquecem que estiveram juntos e amigados, na maior expressão de amor, até muito pouco tempo atrás. Nunca faltam também os tradicionais neófitos da bola, convidados a darem opinião de algo que nunca vivenciaram profissionalmente, e que acabam proliferando rusgas e acusações internas gratuitamente. Dentro de campo, um elenco dividido, de qualidade técnica duvidosa, preocupado com razão com a insegurança de seus salários e premiações após a ruptura política que culminou com a saída do investidor que, por sua vez, bancava financeiramente tudo, quase sempre sozinho, há muito tempo.

O volante Alemão foi um dos poucos que apresentaram eficiência na Série C apesar do rebaixamento

O Ferroviário Atlético Clube quebrou novamente. Quebrou financeiramente e esportivamente, mas também quebrou moralmente, como várias vezes já ocorreu em sua história. A poeira vai baixar em algum momento no futuro e muitos poderão refletir sobre os acontecimentos dos últimos tempos com mais clareza. É preciso enxergar muito além de tudo aquilo que apenas parece ser: o Conselho Deliberativo que toma partido explícito por um lado da cisão não parece ser muito habilidoso, o diretor que jura comprometimento e apunhala pelas costas não parece muito confiável, o levante quase psicopata que pede a cabeça de quem injeta alguns milhões não parece muito inteligente, o trambiqueiro que insiste em fazer jogo duplo não deveria ser bem vindo e o torcedor que se acha dirigente vai parecer sempre um aventureiro. Tudo errado! Faltou paz, luz e discernimento ao ambiente coral. Sobrou vaidade e prepotência, de todos os lados. A queda em campo dos jogadores foi apenas a cereja do bolo, preparado dia após dia pelos que conduzem politicamente o clube. Agora, os diletos irresponsáveis podem se servir do bolo à vontade. O Ferroviário seguirá.

Fotos: Lenilson Santos

GOLEIRO BICAMPEÃO CEARENSE PARTICIPOU DE PODCAST

O goleiro do Ferroviário no histórico bicampeonato estadual 1994-1995 falou ontem sobre sua passagem no futebol cearense. O alagoano Roberval foi o convidado do podcast “Mano a Mano”, dos irmãos Daniel Silvio e David Barbosa, que vai ao ar no YouTube às sextas-feiras no horário noturno. Durante mais de uma hora, o ex-arqueiro do Ferrão recordou sua passagem pelo futebol cearense desde que foi contratado pelo Ceará em 1989. Chegando para o Tubarão da Barra cinco anos depois, ele vivenciou um momento ímpar na história coral até o fim da temporada seguinte, sagrando-se bicampeão estadual. Somado aos poucos jogos que fez no final de 1998, quando voltou a Barra do Ceará com o propósito de encerrar a carreira, Roberval defendeu o arco do Ferrão em 59 partidas. Vale a pena recordar as memórias de Roberval e conferir o bate-papo de ontem à noite, que contou ainda com a participação do Almanaque do Ferrão, entre outros convidados e participantes que enviaram perguntas, mensagens e comentários durante a gravação.

COMPLETAMOS 10 ANOS SEM UMA FINAL NAS CATEGORIAS DE BASE

Sub-20 coral em 2012 – Em pé: Willian Mardoch, Samuel Guerra, Caíque, Everton, Marcelo, Fernando Abade e Léo. Agachados: Alcides Neto, Márcio, Romário, Foguinho, Luisinho, Maico Motta e Cléo

Entre agosto e novembro de 2012, o Ferroviário disputou o campeonato cearense da categoria Sub-20 daquele ano. Ninguém poderia prever que aquela seria a última vez que uma equipe coral chegaria às finais de uma competição de base em qualquer categoria. Afeito à conquistas nas divisões inferiores em décadas passadas e também a ser revelador de talentos, os últimos dez anos mostraram a total decadência coral em termos de gestão na base, muito embora tenha havido substancial evolução da equipe profissional a partir de 2017. A foto acima é um registro da formação que entrou em campo no PV, para um jogo contra o Eusébio, em setembro de 2012. Estes foram alguns jogadores que quase conquistaram o título de campeão Sub-20, conforme matéria bem detalhada de 2015 publicada aqui no blog, com direito a eliminar o Fortaleza na semifinal e a enfrentar o Ceará no jogo decisivo, tendo ainda o gol do título mal anulado pelo árbitro da partida. Dez anos depois, o Ferrão continua sem apresentar evolução em suas categorias de base, que padecem pela falta de recursos para investimento, pela negligência de seus gestores ou por toda sorte de turbulências políticas que costumeiramente assolam o clube. Da garotada do Sub-20 de 2012, a maioria desistiu da carreira nos primeiros anos de vida profissional. O mais bem sucedido foi o meia Foguinho, que hoje atua em alto nível no futebol japonês. Do corpo diretivo, praticamente toda comissão técnica trabalha nas categorias de base do Ceará e são responsáveis diretos pelas conquistas estaduais e nacionais recentes do tradicional adversário coral. Estes talentos estiveram todos a serviço do Ferroviário e se desligaram pouco a pouco por decisões equivocadas e até levianas dos corpos diretivos de plantão. Dez anos sem uma final na base é algo que deveria merecer a mais profunda reflexão dos verdadeiros corais.

ÁUDIO RARO COM GOLEADA CORAL E VOZ DO GOLEADOR PAULO CÉSAR

Eis mais uma raridade em áudio para posteridade aqui no blog. Na narração de Júlio Sales, pela Rádio Verdes Mares, o Ferrão meteu 5×0 no Fortaleza e conquistou o título do 2º turno do Campeonato Cearense de 1979. Em um dos gols, o repórter de campo coloca o microfone na boca do artilheiro Paulo César e capta a voz do ídolo coral, definida pelo experiente narrador como a “voz romântica” do futebol cearense. Ainda na cobertura radiofônica, o ex-árbitro Gilberto Ferreira fala o seu bordão “bota no centro que a bola foi dentro“. É possível ouvir ainda a voz dos setoristas Luiz Antônio e Bezerra de Menezes, além do comentarista José Santana. O nome do saudoso Blanchard Girão também é citado no áudio acima. Além de Paulo César, os gols do Tubarão da Barra foram marcados pelo zagueiro Celso Gavião e pelo atacante Raulino. O ídolo Paulo César reside no Equador desde os anos 1980 e Celso Gavião, apesar de paulista, fixou residência em Fortaleza após pendurar as chuteiras. Por sua vez, o amazonense Raulino faleceu em 2010, aos 55 anos de idade, vítima de problemas cardíacos. Ao final daquela temporada, o Ferrão conquistou brilhantemente o título estadual de 1979 e tirou o sonhado pentacampeonato do Ceará. Essa postagem é dedicada a José Rego Filho e Ruy do Ceará, que comandaram aquela conquista em termos diretivos e que atualmente enfrentam problemas de saúde.

FOTO CURIOSA COM ELENCO CORAL VESTINDO AGASALHO NO PV

Ferroviário em amistoso contra o América/RN em 1978. Em pé: Gilberto, Marcos, Júlio, Arimatéia, Lúcio Sabiá, Ricardo Fogueira, Cândido, Edmundo e Paulo Maurício; Agachados: Louro (Massagista), Luizinho, Jacinto, Paulo César, Doca, Manuelzinho, Jodecir, Jorge Bonga, Babá e Chico Alves

O registro acima é de uma raridade peculiar. Ele mostra o elenco coral de 1978 vestido, no PV, com um curioso agasalho vermelho. O Ferrão era o campeão do 1º turno do Campeonato Cearense de 1978 e recebia o América/RN para um amistoso comemorativo. O treinador Lucídio Pontes relacionou os atletas que aparecem na imagem do dia 13 de setembro, agora colorizada depois de tantos anos. Um público de 3.360 pagantes compareceu à tradicional praça esportiva no bairro do Benfica. O Tubarão da Barra ganhou o jogo por 4×2, com dois gols de Babá e dois gols de Jacinto. Aloísio Guerreiro marcou para a equipe potiguar, também com dois gols. O Ferrão venceu com Gilberto, Paulo Maurício, Lúcio Sabiá (Júlio), Arimatéia e Ricardo Fogueira (Cândido); Jodecir, Doca (Jorge Bonga) e Jacinto; Marcos (Chico Alves), Paulo César (Luizinho) e Babá. O América/RN perdeu com Cícero, Ivan, Joel Santana, Joel Copacabana e Sérgio; Ubirani, Dotto (David) e Marinho; Ronaldo Cruz, Aloísio Guerreiro e Erasmo (Ronaldo Alves). A forte equipe potiguar chegou a fazer 2×0 no placar, mas tomou a virada. Como era um amistoso, o Ferroviário processou cinco substituições, o que é normal no futebol atual, porém na época apenas duas alterações eram permitidas nos jogos oficiais. No América/RN, o goleiro Cícero foi campeão pelo Ferrão no ano seguinte. Na zaga potiguar, o ex-coral Joel Copacabana jogava ao lado de Joel Santana, que transformou-se depois num vitorioso treinador do futebol brasileiro.

GOLEIRO DO SÃO BERNARDO NÃO ULTRAPASSA MARCELINO

Marcelino continua com a quarta melhor marca entre todos os goleiros do futebol brasileiro

No último final de semana, o experiente goleiro Alex Alves, do São Bernardo/SP, foi vazado em sua meta após uma longa minutagem sem sofrer gols na Série D do Campeonato Brasileiro. O gol do lateral André Krobel do Paraná/PR, de falta, quebrou o sonho do goleiro da equipe paulista, aos 19 minutos do primeiro tempo. Assim, Alex Alves alcançou a marca de 1.195 minutos. Apesar do esquecimento da Revista Placar e de outros sites, que insistem em replicar notícias equivocadas, o ex-goleiro coral Marcelino não foi alcançado em sua marca de 1.295 minutos, de 1973, e continua como o quarto principal recorde do futebol brasileiro. Confira abaixo a atualização das marcas com a minutagem alcançada pelo goleiro Alex Alves:

1º Lugar – Mazaropi – 1.816 minutos – Vasco da Gama/RJ – 1978
2º Lugar – Neneca – 1.636 minutos – Náutico/PE – 1974
3º Lugar – Jorge Reis – 1.604 minutos – Rio Branco/ES – 1971
4º Lugar – Marcelino – 1.295 minutos – Ferroviário/CE – 1973
5º Lugar – Zetti – 1.238 minutos – Palmeiras/SP – 1987
6° Lugar – Alex Alves – 1.195 minutos – São Bernardo/SP – 2022
7º Lugar – Jairo – 1.132 minutos – Corinthians/SP – 1978
8º Lugar – Emerson – 1.108 minutos – Paysandu/PA – 2016
9º Lugar – Altevir – 1.066 minutos – Athletico/PR – 1977
10º Lugar – Eli – 1.060 minutos – São Bernardo/SP – 1982

REVISTA PLACAR ESQUECE O RECORDE HISTÓRICO DE MARCELINO

Suplemento Especial da Revista Placar encartado na edição de número 170 de 15 de Junho de 1973

Semana passada, a revista Placar atualizou a planilha com os maiores recordes dos goleiros com mais minutos em campo sem sofrer gols em toda a história do futebol brasileiro. De imediato, a publicação pegou o blog de surpresa com a exclusão do recorde do ex-goleiro Marcelino, que detém até hoje a maior marca da história do futebol cearense, com 1.295 minutos alcançados no Campeonato Cearense de 1973. Na ocasião, Marcelino tentava quebrar o feito do goleiro Jorge Reis, que curiosamente foi mantido no ranking atualizado da Placar. A façanha do ex-goleiro do Ferroviário foi amplamente divulgada nos periódicos da época, inclusive na própria revista Placar, no encarte intitulado “Suplemento Especial“, em sua edição de número 170, de 15/06/1973, com texto do jornalista Marcos Nunes, que trabalhava como correspondente da revista em Fortaleza. A matéria, inclusive, afirma a minutagem de forma equivocada, citando 1.395 minutos, quando na verdade foram cem minutos a menos. O feito de Marcelino completará meio século de existência em 2023.

Matéria da revista Placar, com texto de Marcos Nunes, falando sobre a longa minutagem de Marcelino

Acima, a matéria sobre a derrota do Ferroviário no jogo contra o Maguari que eternizou a marca de 1.295 minutos de Marcelino. Caso o goleiro coral quebrasse a marca de Jorge Reis, ele receberia um carro Fusca como premiação da diretoria do Tubarão da Barra. Faltaram 309 minutos para tal. Esperamos que a revista Placar corrija seu lamentável equívoco e atualize seu ranking histórico com a inclusão do feito do ex-goleiro do Ferroviário. Por dever de justiça e exatidão histórica, a incrível façanha de Marcelino é até hoje a quarta maior marca da história do futebol brasileiro e não pode ser negligenciada por equívocos jornalísticos de qualquer espécie. Assim, as referidas marcas emblemáticas obedecem corretamente a sequência abaixo.

1º Lugar – Mazaropi – 1.816 minutos – Vasco da Gama/RJ – 1978
2º Lugar – Neneca – 1.636 minutos – Náutico/PE – 1974
3º Lugar – Jorge Reis – 1.604 minutos – Rio Branco/ES – 1971
4º Lugar – Marcelino – 1.295 minutos – Ferroviário/CE – 1973
5º Lugar – Zetti – 1.238 minutos – Palmeiras/SP – 1987
6º Lugar – Jairo – 1.132 minutos – Corinthians/SP – 1978
7º Lugar – Emerson – 1.108 minutos – Paysandu/PA – 2016
8° Lugar – Alex Alves – 1.079 minutos – São Bernardo/SP – 2022 (*)
9º Lugar – Altevir – 1.066 minutos – Athletico/PR – 1977
10º Lugar – Eli – 1.060 minutos – São Bernardo/SP – 1982

(*) Alex Alves continua jogando pelo São Bernardo/SP na Série D de 2022 e pode aumentar sua marca em busca das cinco melhores colocações. Eis um fato a ser amplamente observado. Esperamos que após a performance de Alex Alves, a revista Placar atualize novamente seu ranking e não esqueça de incluir a performance do ex-goleiro Marcelino.

O FERRÃO DE DOIS AMISTOSOS HISTÓRICOS CONTRA O SÃO PAULO

Ferroviário em janeiro de 1958 – Em pé: Antônio Limoeiro, Jaime, Nozinho, Manoelzinho, Macaúba e Eudócio; Agachados: Durval Cunha (Treinador), Macaco, Pacoti, Doca, Kitt e Zé de Melo

Em janeiro de 1958, o futebol cearense aguardava ansiosamente a excursão do São Paulo/SP por terras alencarinas. No dia 19 daquele mês, o tricolor paulista entrou em campo, no PV, para enfrentar o Ferroviário. A fotografia acima registra a equipe coral que começou a partida, diante de uma multidão presente nas arquibancadas do velho estádio. O ídolo Pacoti atuava pelo Sport/PE e foi cedido por empréstimo somente para esse grande confronto. A mesma coisa ocorreu com o atacante Doca, cedido pelo Usina Ceará. Treinado por Durval Cunha, o Ferroviário tinha nomes como o goleiro Jaime, ex-Botafogo/BA, os famosos Macaúba e Macaco, além do excelente Kitt. O time coral perdia por 2×1 e alcançou o empate no último minuto do jogo através de Pacoti. O craque Zé de Melo havia marcado o primeiro gol. Amaury e Gino assinalaram para a equipe paulista, treinada pelo húngaro Bela Gutman, e que formou com Paulo, De Sordi (Clélio) e Mauro; Sarará, Vitor e Ribeiro; Rubino, Amaury, Gino, Canhoteiro e Maurinho (Celso). O gol de empate no final do jogo motivou o São Paulo a pedir uma revanche e ela aconteceu quatro dias depois mediante grande expectativa na cidade. A nova partida reservaria momentos de violência, agressões, prisão e muito confusão no PV, mas isso é assunto para uma futura postagem.

MEIO CAMPISTA DOCA EM ENTREVISTA NO VESTIÁRIO CORAL

Meio campista Doca em entrevista no vestiário coral ladeado pelo ex-presidente Chateaubriand Arrais

O registro acima aconteceu após algum jogo do Ferroviário na temporada de 1979. O meio campista Doca, famoso jogador do elenco coral na ocasião, concedia entrevista para um repórter que vestia literalmente a camisa do próprio Ferroviário. Ao lado do jogador, vê-se o dirigente Chateaubriand Arrais, que havia sido presidente entre 1975 e 1977. Doca é o terceiro jogador que mais vezes defendeu a camisa coral, totalizando 338 partidas e 17 gols marcados. Seu nome de batismo é Pedro Assis de Souza, nascido em 10 de março de 1953. Doca chegou para o Ferrão na temporada de 1978 e permaneceu até 1985, atuando em todas as posições do meio campo, notadamente como volante na maior parte dos jogos. Oriundo do Quixadá/CE, o jogador fez sua primeira partida com a camisa do Tubarão da Barra no dia 06/04/1978 contra o América/CE, no Castelão, em jogo válido pelo 1º turno da Taça Waldemar Alcântara. Sua partida de despedida ocorreu no PV, no dia 20/12/1985, contra o Fortaleza, pelo Campeonato Cearense daquele ano. Doca conquistou um título estadual pelo Ferrão, em 1979, quando atuou em 42 jogos e marcou 2 gols.

A VIDA POLÍTICA EM CICLOS E A VAIDADE DOS MEDÍOCRES

Nosso time vinha de cinco temporadas em ascensão. Conquistas esportivas e patrimoniais no currículo de seus dirigentes, que driblaram uma crise que parecia sem fim, quando os pessimistas bradavam: “o Ferroviário vai se acabar”. Apesar da sensação de evolução, pairava algo de estranho nos bastidores corais. No rádio, pretensos candidatos à diretoria subornavam o espaço comercializado por figuras desprovidas de ética e destilavam ódio, disparando a artilharia na direção de um nome específico. Ressaltavam, porém, a importância do investidor – também conhecido como dinheiro – cuja presença era primordial para a sobrevivência do clube, ao mesmo tempo que cumpriam bem a missão de jogar lama na imagem do presidente, taxando-o de ditador, centralizador, arrogante, prepotente e uma série de outros adjetivos de fazer vergonha. Aí vieram reuniões e mais reuniões, sempre intermináveis. Encontros e desencontros. Por força estatutária, o presidente e sua diretoria gozavam do direito de mais um mandato. Uma divergência entre o mandatário maior e um mero dissidente, vaidoso por natureza, apimentou o processo político. Virou a luta do bem contra o mal. E o mal, fizeram crer, seria uma figura específica, o presidente vilão. Afinal, são sempre tantos os mocinhos irremediavelmente vaidosos.

Não, você não está lendo sobre 1997. E nem o presidente em questão é Clóvis Dias, muito menos o investidor chama-se Douglas Albuquerque. São 25 anos na frente do tempo e a história se repete em ciclos que vão e vêm. Dessa vez, tratou de trazer até um inédito título brasileiro no tal processo de ascensão. E é porque diziam que o Ferroviário ia se acabar. Os avanços patrimoniais foram evidentes, o regresso ao cenário nacional também, mas quem se importa? Pagar folha salarial em dia há vários anos é obrigação, dizem aqueles que nunca gerenciaram um time de subúrbio no futebol. Diferente do passado, hoje existem os boquirrotos raivosos das redes sociais e o ritual prevê a disseminação de notícias contraditórias, vazamento de documentos institucionais e interpretações nebulosas. A luta do bem contra o mal, lembra? Os fatos políticos do passado e do presente são rigorosamente – e vergonhosamente – semelhantes. E é possível ver o futuro repetir o passado, se for pra citar o poeta. E se for pra manter a leveza da sabedoria do campo artístico, vale lembrar o ex-goleiro Albert Camus, que você deve conhecer como escritor: “O que eu mais sei sobre a moral e as obrigações do homem, eu devo ao futebol”. Não, amigo. Essa bela lógica pode valer – e sabemos que vale mesmo – na irmandade dos jogadores que dão o sangue em campo em busca de objetivos comuns, mas ela não se sustenta na sordidez do meio político do futebol, onde o estrangeiro se traveste de mocinho e a vaidade é moeda de troca. É só voltar para 1997. Está tudo lá para ensinar.

Qual desfecho você aposta para 2022? A sensação de filme repetido é nauseante. E por ironia do destino, alguns atores – canastrões, por sinal – são exatamente os mesmos do roteiro plagiado do passado. Será que os agentes políticos que hoje fazem o clube não aprenderam nada com a própria história? Deixar a vaidade de lado seria um bom passo para que o Ferroviário siga seu ciclo democrático, seja em qualquer tempo, mas sem a exclusão deliberada e explícita de nomes que estatutariamente podem – e devem – não abrir mão de suas prerrogativas políticas. Quem apaga incêndio com gasolina deveria sair de cena e deixar os diplomatas corais – sim, eles existem – trabalharem no intuito de aparar as arestas. Aqueles que sabem muito bem bajular o investidor – também conhecido como dinheiro, lembra? – mas pedem a exclusão do presidente em específico, deveriam ter vergonha de seus próprios atos parciais. Em 1997, faltou isso em muitos dos mocinhos, que terminaram como vilões. Certa vez, pra finalizar o assunto, um ex-dirigente daquele remoto passado, testemunha ocular da história, taxou aquele nefasto episódio de “A Vaidade dos Medíocres”. Parece que resolveram finalmente investir na produção da continuidade desse filme em 2022. Em breve, nos melhores cinemas.