Prefácio

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Nasci em 1968, ano de um dos nove títulos estaduais do Ferroviário Atlético Clube, aliás, o último campeonato invicto de todo o futebol cearense até hoje. Mas confesso que só fiquei sabendo desses detalhes agora, quase 45 anos depois, graças a este Almanaque do Ferrão, obra enciclopédica do amigo Evandro Ferreira Gomes que traz os registros de simplesmente todos os mais de 3.000 jogos disputados pelo clube desde sua fundação. Do alto da experiência de quem já topou empreitada semelhante sobre times bem mais badalados pela mídia esportiva nacional, como Corinthians e Palmeiras, fico imaginando o tamanho do trabalho que esse verdadeiro abnegado pela bandeira coral deve ter tido. E posso afirmar com toda a certeza: não foi nada fácil.

Mas o Ferrão, em si, eu já conhecia de bem antes, também de um ano de título. Era 1979, e eu, aos 11 de idade, costumava assistir aos Gols do Fantástico com um caderninho na mão, onde procurava anotar as escalações de todos os times do Brasil. Em vão, porque ou as imagens passavam muito rapidamente, sem me dar tempo para ver os números das camisas, ou alguns jogadores, principalmente os de defesa, nunca eram citados pelo narrador, o indefectível Léo Batista. No entanto, os poucos nomes que conseguia registrar jamais me saíram da memória. Entre eles, muitos eram daquele Ferroviário campeão. Como o goleiro Cícero “Capacete”, que fez milagres no 1 x 0 sobre o Ceará, segundo jogo do triangular decisivo. Celso “Gavião”, autor do gol daquela dramática vitória. Jacinto, que no triunfo final, 3 x 0 sobre o Fortaleza, só entrou em campo durante a partida. Terto, veterano ex-ponta-direita do São Paulo, já em final de carreira. E, claro, Paulo César e Babá, os autores de todos os gols daquela decisão, que por isso mesmo foram devidamente destacados pelo Léo Batista na narração daquela noite.

Lembro-me também do trecho do curioso hino do clube que me foi dado conhecer, enquanto os jogadores davam a volta olímpica na televisão da minha casa, ainda em preto-e-branco: “Salve, Salve, F.A.C., é o time dos maiorais… E é o Ferroviário Atlético Clube o dono das iniciais”. A única coisa que diferenciava a camisa do Ferroviário da do São Paulo, o tricolor paulista (já que os escudos dos dois times eram praticamente iguais, à exceção das iniciais já decantadas no hino), era a presença de duas listras a mais, na seguinte ordem: vermelho, branco, preto, branco e vermelho. Anos depois, ganhei do próprio autor deste livro uma réplica retrô daquele uniforme tão diferente quanto histórico. Vestindo-o, tive o prazer de entrevistar para o programa Loucos por Futebol, da ESPN Brasil, o senhor Valdemar Cabral Caracas, que viveu até os 105 anos de idade, ninguém menos que o fundador do próprio Ferroviário.

Agora, materializadas nestas páginas que contam a história de um dos mais tradicionais clubes de futebol do Brasil, estão de volta um pedaço da minha infância e algumas das emoções que vivi naquele 1979, inesquecível tanto para mim quanto para os torcedores do Ferroviário. Só que acompanhadas por muito mais coisas que nem eu nem quase ninguém sabia, retroativas a 1933 e progressivas até 2013. Juntos, agradecem aquele menino de 11 anos e um outro, de 9, que já está ficando tão ou mais louco por futebol quanto o pai.

Celso Unzelte
Jornalista da ESPN Brasil

3 respostas em “Prefácio

  1. Celso Unzelte é um dos grandes praças que a ESPN tem. Canal independente que se especializou em fazer jornalismo esportivo com extrema seriedade , sem bravatas ou parcialidade. Ele com o impagável Marcelo Duarte fazem o inigualável Loucos Por Futebol, o qual não me canso de ver.

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