TORCEDORES LEVAM POSTER DE TIME INESQUECÍVEL TRÊS DÉCADAS DEPOIS

Torcedores em 2018 vão ao estádio do Ferrão com o poster da equipe campeã cearense de 1988

Na semana em que o Ferroviário Atlético Clube comemora os 30 anos da grande conquista do campeonato cearense de 1988, o Almanaque do Ferrão eterniza agora uma foto bastante curiosa que viralizou nas redes sociais no mês passado. Por ocasião do jogo de entrega de faixas dos campeões brasileiros de 2018, um grupo de torcedores corais foi à comemoração do título nacional na Vila Olímpica Elzir Cabral levando o poster da vitoriosa equipe de três décadas atrás. Sem dúvida alguma, quem viu o time de 1988 em ação, afirma categoricamente que foi uma das maiores equipes já formadas em mais de um século de edições do campeonato cearense. Você pode sentir um pouco do clima daquela inesquecível temporada conferindo os áudios resgatados diretamente de fitas cassetes gravadas na época e que foram publicadas anos atrás aqui no blog, basta verificar o aúdio 1, áudio 2 , áudio 3 e voltar no tempo!

DIRETORIA CORAL CONCLAMAVA A PRESENÇA DA TORCIDA EM 1968

Ninguém duvida que o Ferroviário tem a terceira maior torcida no futebol cearense, mas a lembrança de que um dia esta mesma torcida já foi maior que a do Fortaleza é sempre recorrente. O Almanaque do Ferrão faz um recorte no tempo e vai até 1968, ano em que os dirigentes corais ainda tentavam neutralizar o crescimento vertiginoso da torcida do adversário, que realmente havia ultrapassado a do Tubarão da Barra em anos anteriores. Curioso ver que, naquela época, a direção coral já não andava muito satisfeita com o comparecimento de seus torcedores, razão pela qual não ser muito inteligente repetir a velha ladainha nos dias atuais. É chover no molhado, como dizem os mais antigos. Vale a pena a leitura da matéria abaixo retirada do extinto Correio do Ceará. Vale mais ainda recordar José Rego Filho, um dos maiores dirigentes da nossa linda história. O próprio exemplo de 1968 pode ser seguido atualmente. Não adianta reclamar da própria torcida, ela comparecerá quando achar que deve prestigiar, quando o clube fizer por merecer com atuações competitivas e chances de conquista. Naquele ano, apesar das reclamações durante o campeonato, a torcida decidiu dar o ar da graça na reta final e viu um título estadual inesquecível depois de 16 anos. É que a gente só lembra das coisas boas.

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O QUE SE PODE EXTRAIR DA MÉDIA DE PÚBLICO HISTÓRICA DO CLUBE

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Nada mais amador que a distribuição gratuita de ´achismos` no futebol. Por isso se explica tantos discursos inconsistentes no mundo da bola, principalmente nos aspectos ligados à gestão de receitas oriundas de bilheteria, hoje em dia a terceira ou quarta fonte de arrecadação das equipes minimamente organizadas. O Ferroviário, e o futebol cearense como um todo, parecem bem longe dessa realidade, razão pela qual ainda se escutam frases no seio coral do tipo “vamos lotar o PV“, “rumo aos 3 mil pagantes” e, a pior de todas, a velha cantiga de grilo: “a torcida do Ferroviário não ajuda“. Puro achismo, como gostava de frisar o saudoso Estelita Aguirre, ex-diretor de comunicação do Ferrão, em seus comentários otimistas, porém sempre eivados de uma boa dose de acidez realista.

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Estádio Presidente Vargas na época do BI coral

Historicamente, os times de origem proletária no Brasil nunca foram detentores de torcidas de massa e os sociólogos estão ai para explicar melhor. Do ponto de vista prático, a versão impressa do Almanaque do Ferrão traz um estudo inédito, iniciado ainda nos anos 90, que definiu métricas de análise do poder de captação de torcedores corais em jogos do Ferroviário desde 1967, justamente o primeiro ano que o número de torcedores pagantes passou a ser oficialmente divulgado pela mídias e em documentos oficiais no futebol alencarino. A análise foi metodologicamente definida e evitou propositadamente a inclusão de partidas contra Ceará e Fortaleza, pois estes clubes levam seus próprios torcedores quando o adversário é o Ferroviário. Na abordagem trabalhada, o Tubarão é o único e principal chamariz dos jogos, o motivo pela qual a imensa maioria dos torcedores presentes acorre ao estádio. Esta sim deve ser a referência de público para o clube, o que for ´plus`, como no caso dos embates contra alvinegros e tricolores, é lucro.

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Torcida coral prestigiando a Série C de 2006

Uma rápida olhada nos dados e se comprova que boa média de público só existe associada ao time fazendo boa campanha dentro de campo. Futebol é entretenimento e ninguém paga ingresso quando há perspectiva de dissabores, o que justifica as péssimas médias depois do inédito bicampeonato 94/95, fruto de questões políticas mal resolvidas que mudaram o rumo das coisas desde então e que chegou ao cúmulo de ocasionar uma média de 320 pagantes no ano 2000, a pior da história. Numericamente, quase nunca se chegou nem perto de algo semelhante a 1978, a melhor média da história com 3794 pagantes, quando o clube amargava um jejum de 8 anos sem títulos, mas cuja diretoria agitou o futebol cearense com grandes contratações numa tentativa de soerguimento, que veio com o título cearense de 79 e um período alvissareiro de público até 1981. Algo não muito diferente do período 1988-1989, 1994 e 2006, ou seja, de tempos em tempos, todos períodos breves associados a boas campanhas, independente de títulos.

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Campeonato Cearense no Elzir Cabral em 2009

Desconfie quando alguém disser que “em 1968 o Ferroviário lotava o PV” ou que “o Ferroviário não tem torcida“. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Os ´achismos` do futebol tendem a criar lendas nunca comprovadas e que só geram o errôneo entendimento das coisas. Só o que é científico pode desbancar o empírico. É evidente que Fortaleza não é mais a mesma cidade de antes, cresceu e virou metrópole, a torcida do Ferroviário não evoluiu numericamente na mesma proporção que a dos adversários e a própria cidade, o que faz com que proporcionalmente estejamos menores, porém não é o fim do mundo diante do parâmetro apresentado pelos números absolutos, e ressalte-se ainda que há clubes muito longe do potencial da torcida coral que disputam inclusive campeonato nacional. São estes os maiores exemplos de que dá pra fazer bonito quando se há na gestão uma diretriz única, permanente e inquebrável. O resto é ´achismo` e os números estão ai para tentar dar um pouco mais de clarividência aos incautos.