O DIA EM QUE O FERROVIÁRIO CHOROU A MORTE DE DONA FILÓ

A sede e o estádio do Ferroviário ficam localizados no bairro da Barra do Ceará, mais precisamente na Rua Dona Filó, número 650. O que muita gente tem curiosidade de saber é quem foi a senhora que cedeu seu nome para aquela rua situada na zona oeste da cidade. Não foi uma mera coincidência. Dona Filó foi uma baluarte na história coral entre as décadas de 1940 e 1960, período em que a participação feminina no futebol era algo raro e praticamente proibido. Ela teve uma morte súbita em 1963, após longos anos de ajuda e incentivo às várias formações de diretoria no clube. A matéria de jornal acima, publicada logo após seu falecimento, resume um pouco da importância de Dona Filó. Entre várias ajudas que prestou ao time coral, ela era proprietária de uma pensão que hospedava jogadores que chegavam para o Ferroviário. Por exemplo, foi lá que os irmãos Manoelzinho e Raimundinho foram acolhidos quando desembarcaram do Piauí em 1946. Quando a direção do clube definiu a Barra do Ceará para a construção da definitiva sede coral, já na segunda metade dos anos 1960, o nome da saudosa Filomena Cecília foi imediatamente lembrado. Entre a manifestação da ideia e o trâmite burocrático em nível municipal passaram-se alguns anos, até que definitivamente o nome oficial do logradouro passou a ser Rua Dona Filó, uma eterna homenagem a quem muito fez pelo Ferroviário.

REGISTRO DA ONZENA QUE ENTROU EM CAMPO CONTRA TIME URUGUAIO

Ferroviário Atlético Clube em 1957 contra o Wanderers do Uruguai – Em pé: Macaco, Pacoti, Zé de Melo, Aldo e Fernando; Agachados: Renato, Macaúba, Eudócio, Manoelzinho, Jairo e Nozinho

O jogo histórico contra o Montevideo Wanderers mereceu uma postagem especial aqui no blog anos atrás. Diretamente do Arquivo Nirez, o registro de hoje mostra a onzena que começou a partida, formada por jogadores históricos do Ferrão, mas também por um atleta de outra equipe especialmente cedido para a ocasião, algo comum no futebol daquela época. Além dos recordistas Manoelzinho e Macaco, o maior em número de jogos e o maior em número de gols na história respectivamente, é possível vermos o eterno ídolo Pacoti, falecido no ano passado. Vemos também o implacável Zé de Melo, primeiro jogador da nossa história a vestir a camisa da seleção brasileira. Aldo, Fernando e Eudócio também são nomes lendários da história do Ferroviário. O goleiro Jairo na imagem pertencia ao Calouros do Ar e foi cedido ao Ferrão em algumas partidas amistosas naquela década. Nessa partida contra a equipe uruguaia, ele ganhou a vaga de Valdir, Juju e Sieta, arqueiros do elenco coral nas disputas do Campeonato Cearense de 1957. O amistoso contra o Wanderers terminou 0x0 e o Ferrão foi bastante elogiado pela atuação. Vivia-se o auge do chamado “Clube das Temporadas“, período em que o time coral sempre se dava bem nos jogos contra times importantes que excursionavam na cidade de Fortaleza.

VÍDEO COM LENDAS DA HISTÓRIA CORAL: ZÉ DIAS E MACAÚBA

O vídeo acima é de um valor histórico inestimável. Ele foi gravado décadas atrás e pertence ao acervo do pesquisador Aderbal Nogueira, que encontrou e filmou depoimentos de ex-jogadores do Ferroviário ligados à história do desenvolvimento da ´Estrada de Ferro` no estado do Ceará. Depois de editar um conteúdo especial sobre o ex-defensor Manoelzinho, recordista coral em número de jogos, o pesquisador divulgou no YouTube um novo material em vídeo, trazendo o depoimento do ex-goleiro Zé Dias e do ex-defensor Macaúba, dois grandiosos nomes da história coral que atuaram entre as décadas de 1940 e 1960, ambos já falecidos. Zé Dias é até hoje o goleiro que mais vezes defendeu o Ferroviário. Foram 197 partidas e 9 títulos conquistados entre 1944 e 1957. Por sua vez, Macaúba participou de 275 jogos entre 1950 e 1961, marcando 3 gols e conquistando 10 títulos pelo Ferrão. Vale a pena conferir o vídeo e recordar as lembranças futebolísticas desses antigos atletas, que além de defenderem as cores corais nos gramados cearenses, ainda dividiam o tempo com suas atividades profissionais rotineiras na Rede de Viação Cearense, a saudosa RVC. 

ADEUS AO RECORDISTA QUE MAIS VEZES ENTROU NOS GRAMADOS

Manoelzinho: grande recordista

Manoelzinho se foi. O jogador que mais vezes entrou em campo com a camisa do Ferroviário Atlético Clube faleceu ontem, em Fortaleza, aos 92 anos de idade. O piauiense Manoel David Machado teve uma vida longeva e foi homenageado algumas vezes, tanto em sua carreira profissional exercida na ´Estrada de Ferro`, como também como jogador de defesa histórico do Tubarão da Barra, entre os anos de 1946 e 1962. Foram 407 jogos com a camisa coral, 10 gols marcados e, nada mais nada menos, que 12 títulos conquistados pelo Ferrão, a saber: campeão do Torneio Início de 1949, campeão da Taça Heitor Ribeiro em 1949, campeão cearense de 1950, campeão do Quadrangular Interestadual em 1951, campeão do Quadrangular Estadual em 1952, campeão do Torneio Municipal em 1952, campeão da Taça Castelo Branco em 1952, campeão cearense de 1952, campeão do Pentagonal de Fortaleza em 1955, campeão do Pentagonal Estadual de 1955, campeão da Copa Fortaleza-Maranguape em 1958 e campeão do Torneio Moisés Pimentel em 1960. Em 2019, Manoelzinho foi homenageado na coleção de copos ´Legendários` e compareceu a um jogo do Ferroviário contra o Imperatriz/MA, no PV, palco de suas atuações no passado. Recentemente, o livro ´Crônicas Corais` foi lançado, trazendo uma crônica intitulada “Ao mestre, com carinho“, escrita em homenagem ao recordista coral. Abaixo, um registro histórico: uma compilação do documentarista Aderbal Nogueira, gravado na primeira década dos anos 2000, quando o ex-jogador recordou momentos de sua vida. Descanse em paz, Manoelzinho.

LEMBRANÇAS DO TIME QUE METEU 4×0 NO CEARÁ NO ESTADUAL DE 1947

Ferroviário Atlético Clube em 1947: Zé Dias, Decolher, Manuel de Ferro, Vicente Trajano, Caranguejo, Pipi, Benedito, Toinho II, Manoelzinho, Toinho I, Raimundinho e Baiano (treinador)

Esse belo retrato é a base do time do Ferroviário Atlético Clube que meteu 4×0 no Ceará no dia 6 de Julho de 1947, no PV. O jogo valeu pelo 1º turno do campeonato cearense daquele ano e está completando hoje mais uma aniversário daquela grande vitória. Os gols foram de Toinho I, Manoelzinho, Toinho II e Decolher. É possível identificar nomes emblemáticos da história coral, como Zé Dias, o goleiro que mais vezes defendeu a camisa coral em todos os tempos, com 197 partidas no currículo. Além dele, destaque também para a dupla de irmãos piauienses Manoelzinho e Raimundinho na mesma imagem. O primeiro é o recordista coral em número de jogos. Foram 403 partidas de Manoelzinho pelo Ferrão, enquanto Raimundinho atuou em apenas 40 jogos e depois regressou para o Piauí. O atacante Decolher, infelizmente, teve morte trágica nos anos 1950. O time era treinado por J.G. Andrade, o famoso Baiano. Essa equipe foi vice-campeã estadual de 1947 após um episódio lamentável, porém histórico, que culminou com a prisão de todos os jogadores corais na decisão contra o Fortaleza, fato que mereceu destaque em postagens anteriores aqui no blog.

COM MANOELZINHO NO ESTÁDIO, FERRÃO CONSEGUE VITÓRIA INÉDITA

Mestre Manoelzinho autografa seus copos antes da vitória inédita em cima do Imperatriz/MA

O fim de semana passado foi mágico para a torcida do Ferroviário. Basta olhar a imagem acima e acompanhar o vídeo abaixo. O time coral bateu o Imperatriz/MA por 2×1 e manteve-se líder isolado da Série C nacional. O gol da vitória veio dos céus, ou melhor, dos pés do meia Juninho Arcanjo, ex-Fluminense/RJ, aos 47 minutos da etapa final, levando muito vibração aos presentes no estádio. Antes disso, no primeiro tempo, o ídolo e artilheiro Edson Cariús já havia marcado um golaço. Antes mesmo do jogo começar, o ex-jogador Manoelzinho, recordista em número de jogos com a camisa coral, apareceu no Presidente Vargas, depois de anos sem ir a uma partida de futebol, pegando muita gente de surpresa! Manoelzinho distribuiu simpatia no alto de seus 90 anos de idade, autografou os copos da coleção ´Legendários` para muitos torcedores e encantou o setor das cadeiras sociais do PV com sua ilustre presença, fazendo aquela tarde de sábado ainda mais especial. Foi o primeiro confronto entre o Tubarão da Barra e a equipe maranhense na história! Vitória coral, inédita e em grande estilo, abaixo registrada pela TV Artilheiro com a narração de Breno Rebouças na Rádio O Povo.

RECORDISTA EM NÚMERO DE PARTIDAS ESTAMPA NOVO COPO

Zagueiro Manoelzinho estampa o copo da série Legendários do jogo contra o Imperatriz/MA

O zagueiro Manoelzinho é apontado como um dos maiores nomes da história do Ferroviário Atlético Clube. Desde que chegou ao Ferrão na temporada de 1946, acompanhado de seu irmão Raimundinho, ambos oriundos do Flamengo da cidade de Parnaíba, interior do Piauí, Manoel David Machado teve uma carreira longeva e vitoriosa no Ferroviário. Na ocasião, a indicação dos irmãos Manoelzinho e Raimundinho partiu do próprio presidente do Flamengo de Parnaíba, Antônio João de Araújo, que residia em Fortaleza e comentou sobre o potencial dos dois jovens para Valdemar Caracas. As portas da pensão de Dona Filó, no centro de Fortaleza, foram abertas para os dois jovens e eles puderam iniciar no Ferrão. Manoelzinho passou 16 anos. Foram 403 jogos com a camisa coral, o que o coloca na história como o recordista em número de partidas, fato este agora eternizado na coleção ´Legendários` do setor de marketing do Tubarão da Barra a partir da produção de uma série de copos colecionáveis, comercializados durante as partidas do time coral em Fortaleza, por ocasião das disputas da Série C do campeonato brasileiro de 2019. O copo de Manoelzinho estará abrilhantando o jogo do Ferrão contra o Imperatriz/MA que, por sua vez, se enfrentam pela primeira vez na história, no Estádio Presidente Vargas.

RETRATO HISTÓRICO DE QUANDO O FUTEBOL ANDAVA DE TREM

Jogadores elegantemente uniformizados após viagem de trem para o interior do Ceará em 1957

´Quando o Futebol Andava de Trem` é o nome do livro escrito há quase duas décadas por Ernani Buchmann, ex-presidente do Paraná Clube. Nele, o autor percorre todos os estados brasileiros mostrando a força do movimento da classe ferroviária na formação de vários times de futebol. Cria da Rede de Viação Cearense em 1933, o Ferroviário costumava viajar de trem para seus compromissos no interior e até em outros estados. Na foto acima de 1957, ano da criação da histórica Rede Ferroviária Federal (RFFSA), é possível observar nomes lendários da vitoriosa caminhada coral nos anos 1950 como os zagueiros Nozinho e Manoelzinho, o meia Aldo, um dos maiores craques cearenses em todos os tempos, o lendário centroavante Pacoti e o atacante Macaco, o maior goleador da história do Tubarão da Barra até os dias de hoje. Na imagem, vê-se os jogadores elegantemente uniformizados em mais uma viagem de trem para uma apresentação amistosa em alguma localidade do interior cearense. Belo retrato coral!

INAUGURAÇÃO DO ESTÁDIO DE SÃO BENEDITO COM 10 MIL PESSOAS

Manchete de jornal na inauguração do estádio municipal de São Benedito na temporada de 1976

Foi há 40 anos. Exatamente no dia 31 de outubro de 1976, o Ferroviário foi até a fria cidade de São Benedito, no alto da Serra Grande, para inaugurar o estádio municipal que leva até hoje o nome de Capitão Tarcísio Araújo. Dez mil pessoas estiveram presentes na nova praça esportiva, um verdadeiro recorde para os padrões da época, em grande ação promovida pelo então prefeito Thomás Brandão, que contratou o Tubarão da Barra pela quantia de 12 mil cruzeiros. Foi o jogo 1.522 da história coral. Paulinho Machado e Almir marcaram para o Ferrão, enquanto César marcou 2 gols para o selecionado de São Benedito. O time coral, com uma formação recheada de pratas da casa, teve 2 gols anulados e só chegou ao empate no último minuto de jogo, que teve José Abdala no apito.

Paulinho Machado

Comandado pelo competente Lucídio Pontes, o Ferroviário Atlético Clube jogou com Paulinho, Jorge Henrique, Manoel, Félix e Raimundinho; Carlos (Pinto) e Cláudio Silva; Carlos Alberto, Paulinho Machado,  Almir e Babá. A Seleção de São Benedito, do técnico Leite, jogou com Miranda, Nazion, Edmilson, Fernando e Tim; Fernando II e Cadete; Chiquinho (Américo), Vilmar, César (Neném) e Francisco. Na formação coral, o goleiro Paulinho, o lateral Jorge Henrique e o ponta esquerda Babá permaneceram por mais tempo no clube e foram campeões estaduais três anos depois no Ferrão. O atacante Paulinho Machado, autor do primeiro gol em São Benedito, é filho do lendário Manoelzinho, um dos maiores nomes da história do clube. Ele vestiu a camisa coral em 32 partidas e marcou 11 gols. Desde aquele 31 de outubro, o Ferroviário atuou apenas 6 vezes no estádio municipal de São Benedito, uma delas em caráter oficial, pelo campeonato cearense de 2013, quando foi registrado um novo empate.

AO MESTRE MANOELZINHO, O RECORDISTA EM NÚMERO DE JOGOS

manoelzinho

Manoelzinho: 403 jogos pelo Ferrão

Mestre é aquele que é versado na ciência ou na arte. Não são todos que alcançam tal condição na peculiar arte de jogar bola. Manoelzinho chegou para o Ferroviário ainda menino. Pequenino na estatura, agigantava-se em campo diante dos atacantes adversários. Defendeu as cores corais no auge do futebol cearense, durante dezesseis anos, sempre encantando os torcedores. O pequeno Manoel David Machado era respeitado até pelos rivais. Dono de um futebol eficiente, tinha sempre seu nome lembrado nas convocações da Seleção Cearense. O lendário Elba de Pádua Lima, o Tim, sabia bem disso. No último mês de agosto, Manoelzinho comemorou ao lado da família seus 88 anos de idade. São muitas histórias para contar. Certa vez, ao encontrar com o ex-presidente coral Chateaubriand Arrais, o pequeno-grande piauiense lamentou a falta de memória que assola os mais velhos e a falta de conhecimento que ataca os mais novos. A torcida do Ferroviário jamais poderá esquecer os grandes préstimos do querido Manoelzinho. Pouquíssimos jogadores no futebol mundial tiveram a sorte e a honra de vestir a mesma camisa por tanto tempo. Dezesseis anos não passam definitivamente em dezesseis dias.

Foto de 1949 no Ferroviário

Ao conquistar os títulos de 1950 e 1952, Manoelzinho escreveu para sempre seu nome na galeria dos inesquecíveis do Tubarão da Barra. Mais que isso, seu nome será sempre lembrado como exemplo de cidadão e profissional. Homem íntegro, Manoelzinho conciliou as atividades de soldador na antiga RVC com os treinos e embates históricos do futebol daquela época. Venceu nos dois campos, pois de simples soldador transformou-se em mestre da metalurgia e de jogador transformou-se em mestre da bola. Sim senhor, mestre da bola. Homenagens por suas vitórias não faltaram na longa vida de Manoelzinho e estas se confundem com as vitórias do próprio Ferroviário Atlético Clube. Os mais velhos guardam na memória seus grandes momentos nos gramados. Os mais jovens, só por ouvir dizer, sentem saudade daquilo que não viram, mas sabem. Manoelzinho é eterno na história do Ferrão, pois além de vitorioso e longevo, é simplesmente o jogador que mais vezes vestiu a camisa coral em todos os tempos. Foram 403 jogos e 10 gols marcados no total. Manoelzinho é mestre. Mestres são ídolos e ídolos são eternos. Sempre.