REINAUGURAÇÃO DO GRAMADO NA BARRA E A VISÃO DE ELZIR CABRAL

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Ex-presidente Elzir Cabral – o primeiro da direita para esquerda, e sua diretoria observam o nivelamento daquele que seria o primeiro gramado do estádio do Ferrão na Barra do Ceará

No dia em que o Ferroviário reinaugura o novo gramado do Estádio Elzir Cabral, o Almanaque do Ferrão resgata dois materiais históricos que devem simbolizar o esforço e a missão de seus atuais dirigentes. Que o sonho e as palavras do visionário Elzir Cabral, em 1966, se renovem a cada dia e sirvam de estímulo aos responsáveis pelo clube. Cuidar do patrimônio, construído a ferro e fogo por gerações passadas, já é um bom começo. Como preconizava o ex-presidente, o clube pode e deve renovar as esperanças após sérias crises – estas já presentes no passado e tão conhecidas no presente – nada impossível para uma diretoria que deve ser coesa e integrada dos melhores propósitos. Já conseguimos tantas vezes ao longo das décadas, por que não novamente? Leiam.

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Texto do ex-presidente Elzir Cabral publicado no lançamento da Revista Coral no ano de 1966

SOBRE PRATAS DA CASA, TORRE DE BABEL E LIÇÃO DE SOBREVIVÊNCIA

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Em pé: Paulo Tavares,  Nonato Ayres,  Zé Antônio,  Vicente,  César,  Lúcio Sabiá,  Pedrinho, Arimatéia e Eldo; Agachados: Danilo, Oliveira, Chicó, Vanderley, Almir, Lula, Aucélio e Jeová

O Almanaque do Ferrão resgata hoje uma foto de 1975, ano que o Ferroviário viveu grave crise financeira e teve seu nome envolto a situações vexatórias como jogadores passando necessidades, crise política alarmante, oficiais de justiça recolhendo objetos na sede do clube para saldar dívidas trabalhistas, entre outras mazelas. Foi um período complicado que findou com a renúncia coletiva da diretoria presidida pelo então deputado estadual Aquiles Peres Mota. No segundo semestre da temporada, o elenco era formado basicamente por pratas da casa. Nomes como César, Almir, Lúcio Sabiá, a revelação da temporada Aucélio e Danilo Baratinha, mesclados com a experiência de Paulo Tavares, ex-Ceará, do goleiro Pedrinho e Eldo, remanescente do título de 1970.

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Manchete do jornal O Povo sobre a grave situação do Ferroviário Atlético Clube em 1975

Profundamente enraizada na cultura coral, a crise política parecia não ter fim. Torcida revoltada pela venda do zagueiro Cândido ao Fortaleza e Conselho Deliberativo a exigir prestação financeira de contas após renúncia coletiva: o Ferroviário e sua eterna vocação para Torre de Babel. A foto rara de hoje recorda um grupo de jogadores bravos que souberam ultrapassar os momentos de dificuldade e levaram o clube adiante. A chegada de uma nova diretoria para a temporada seguinte marcou o renascimento do Ferrão. Do click acima, Lúcio Sabiá e Arimatéia estavam no título estadual três anos depois. Trilharam o caminho da paciência e entraram para os anais da história em forma de redenção. Mesma história que guarda uma página para o grupo de 1975 acima, hoje homenageado, por trilhar firmemente o caminho da sobrevivência.

MATÉRIA DE TV DE 1997 SOBRE A QUEDA DO PRESIDENTE CLÓVIS DIAS

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Duas décadas de dificuldades na vida coral após a malfadada crise política de dezembro de 1997

Clóvis Dias foi o único presidente bicampeão na história do Ferroviário. Assumiu o clube em 1993 após uma humilhante derrota de 9×1 para o Ceará e, ainda na mesma temporada, levou um time desacreditado à final de um turno. Tendo tempo para trabalhar e reformular o Ferrão por completo, montou um time quase imbatível que conquistou com supremacia os títulos estaduais em 94 e 95. Por muito pouco não foi tricampeão no ano seguinte. Em 97, sua pior colocação nos quase cinco anos de presidência: um 3º lugar na tábua de classificação, atrás apenas de Ceará e Fortaleza. Na reta final daquele ano, um jogo de intrigas, interesses, fofocas, picuinhas e vaidades minaram definitivamente o solo coral e provocaram a queda de Clóvis Dias da presidência de forma traumática, sem sequer permiti-lo democraticamente concorrer à reeleição. Já são duas décadas sem títulos após aquele episódio marcado por muita confusão, boletins de ocorrência em delegacias, adulteração de ata, ações judiciais, liminares e um acordo político que deixou sequelas na vida do clube, elevando o tema ao patamar de um dos maiores tabus da história do Ferroviário até hoje.

O Almanaque do Ferrão resgata logo abaixo uma matéria da TV Jangadeiro explicando o malfadado acordo, que culminou com a saída de 10 jogadores da base coral para que Clóvis compensasse aportes pessoais e investimentos de terceiros, além da chegada de Carlos Alberto Mesquita para um mandato de dois anos na presidência. Não se pode afirmar que o clube manteria sua trajetória de sucesso com uma possível reeleição de Clóvis Dias naquela oportunidade. Talvez sim, talvez não. Conselheiros, por sua vez, alegaram intervir em defesa dos interesses do clube por temerem complicações patrimoniais. O fato é que após aquele lamentável episódio na vida do clube, Clóvis seguiu sua vida no futebol atuando com relativo sucesso como empresário de jogadores, mantendo negócios no Brasil e no exterior, enquanto o Ferroviário saiu do trilho e passou a padecer de momentos dolorosos. Sob nova direção em 98, um honroso vice-campeonato com mais da metade do elenco herdado da gestão anterior. Em 99, um vergonhoso 7º lugar na classificação final com o time lutando contra o rebaixamento em alguns momentos da competição, posição e situação recorrentes no caminho coral em várias temporadas seguintes, o que historicamente qualifica o episódio de dezembro de 1997 como um divisor de águas na caminhada coral, um grave golpe político na trajetória vitoriosa do Ferroviário nos anos 90 com consequências drásticas para o futuro do clube.