RECORDANDO O ARTILHEIRO CORAL NO CAMPEONATO ESTADUAL DE 1977

oliveirapiaui04blog

Valente Oliveira Piaui, em meio a vários jogadores do Fortaleza, num Clássico das Cores em 1977

Mês passado, dois veteranos da crônica esportiva cearense falavam sobre jogadores do passado. Eram  Júlio Sales e Messias Alencar, conversando ao vivo na Rádio Assunção 620 AM, por volta de meio-dia. A lembrança de ambos remeteu aos anos 70 e o nome de um ex-jogador extrovertido e bom de bola ganhou notoriedade por alguns instantes. Eles falavam de Oliveira Piauí, um atacante paulista que o Ferroviário contratou junto ao Tiradentes/PI, que naquela década realizara campanha histórica no campeonato nacional. Foi exatamente no mês de março, em 1977, que Oliveira Piauí fez seu primeiro jogo com a camisa coral, entrando no segundo tempo no posto do atacante Ivanildo, numa vitória por 2×1 em cima do América/CE, válida pelo 1º turno do campeonato cearense. No jogo seguinte, contra o Guarani de Juazeiro, no Romeirão, já era titular e marcou seu primeiro gol oficial com o manto do Ferrão no empate em 2×2. No total, foram 40 jogos e 27 tentos assinalados por João Oliveira de Carvalho, o Oliveira Piauí, que logo caiu nas graças da torcida coral, cuja média de público chegou a 2.219 pagantes naquele ano. Virou ídolo, dava entrevistas interessantes e costumava dizer que sua ´sacola´ vivia cheia de gols.

oliveirapiaui01blog2

Oliveira Piauí: simpatia

Sob a presidência de Chateaubriand Arrais e o comando técnico de Pedrinho Rodrigues, que substituiu Lucídio Pontes ainda no 1º turno, o Ferroviário fez bonito. Em várias rodadas, Oliveira Piauí chegou a liberar a tábua de artilheiros do campeonato, disputando palmo a palmo com ex-craque coral Amilton Melo, goleador maior do certame com 24 gols. Apesar de uma ótima base formada pelo goleiro Giordano, os laterais Bassi e Grilo, o meia Joel Maneca, entre outras feras, o Ferrão terminou o campeonato na 3ª colocação. Oliveira Piauí deixou o clube após a temporada e foi defender o Ceará na campanha do tetra alvinegro no ano seguinte. Em 1979, seu brilhantismo mereceu a coroação de ´Rei`em Natal, atuando pelo América/RN. Depois, voltou ao futebol paulista e, em abril de 1981, quando defendia a Catanduvense/SP, uma triste notícia abalou o futebol cearense. Dela, Júlio Sales e Messias Alencar nunca esqueceram. Oliveira Piauí morreu, jovem, aos 27 anos de idade, vitimado por problemas cardíacos. Cria do simpático Juventus/SP, o ex-atacante teve uma carreira meteórica no futebol. O tempo, implacável como sempre, leva muitas vezes ao esquecimento, afinal já se vão 35 anos de seu falecimento, porém o Almanaque do Ferrão tem como propósito eternizar nomes que não merecem ser esquecidos, razão pela qual Oliveira Piauí ganha o destaque de hoje.

VÍDEO RARO DE VITÓRIA CORAL NO CAMPEONATO CEARENSE DE 1978

O vídeo mais antigo do Ferroviário no YouTube mereceu destaque do blog em postagem no mês de outubro do ano passado. Tratava-se do confronto contra o Ceará no dia 26 de novembro de 1978, vitória alvinegra pelo placar de 1×0. Para a surpresa de todos, no mês passado, caiu na rede outro vídeo exatamente do mesmo ano, novamente contra o Ceará, só que de uma partida realizada em 8 de outubro. Dessa vez, vitória coral por 2×1 e um show de imagens que mostram jogadores emblemáticos como Ricardo Fogueira, Jorge Bonga, Paulo César e Babá em ação com a camisa coral. A dica partiu do internauta Charles Garrido, um dos maiores entusiastas das atualizações do Almanaque do Ferrão, que entrou em contato por mensagem para avisar a boa nova.

célio pamplona

Presidente do Ferrão: Célio Pamplona

As imagens do vídeo não mostram a expulsão do zagueiro Lúcio Sabiá, que deixou o time coral com um homem a menos durante a maior parte do jogo. Também não mostram o pênalti claro do goleiro Procópio cometido em cima de Paulo César. Porém, mostram a reclamação contra a arbitragem e o destempero do dirigente alvinegro Antônio Góes, que na intempestividade de sua juventude, deu um soco no árbitro Leandro Serpa ao reclamar de uma expulsão claramente acertada após falta violenta em cima do ponta esquerda Babá. A agressão valeu a punição de um ano ao dirigente. Era o jogo 1.633 da história coral, assistido por 19.687 pagantes. O Ferrão, que já havia vencido o 1º turno, marchava célere para a conquista do returno, porém caiu na disputa de pênaltis na final contra o Fortaleza realizada três semanas depois, uma grande injustiça para o ótimo time montado pelo presidente Célio Pamplona, que tinha em sua diretoria nomes inesquecíveis como Ruy do Ceará, Elzir Cabral, José Rego Filho, Chateaubriand Arrais, Telmo Bessa e Mário Picanço.

gilberto_78

Experiente Gilberto: goleiro coral em 1978

Repare na excelente formação do Ferroviário, treinado pelo competente Lucídio Pontes: Gilberto, Paulo Maurício, Lúcio Sabiá, Arimatéia e Ricardo Fogueira; Jodecir, Doca e Jacinto (Jorge Bonga); Marcos (Luizinho), Paulo César e Babá. O Ceará, do técnico Sebastião Leônidas, lendário ex-zagueiro do Botafogo/RJ, jogou com Procópio, Tércio, Pedro Basílio, Artur e Dodô; Edmar, Danilo (Júlio) e Erasmo; Jangada, Ivanir (Mickey) e Tiquinho. Na formação alvinegra, dois grandes atletas formados no próprio Ferroviário: Edmar e Danilo Baratinha. E ainda três nomes que vestiriam depois a camisa coral: Procópio, Artur e Jangada. Os gols do Ferrão foram do meia Jorge Bonga, ex-Sport/PE, e do ponta direita Marcos, ex-São Paulo/SP. Na meta coral, a tranquilidade do experiente Gilberto, que marcou época em Pernambuco como goleiro pentacampeão pelo Santa Cruz/PE e posteriormente como descobridor de Rogério Ceni enquanto treinador de goleiros do São Paulo/SP. Nomes de um grande time, que fez um grande campeonato, o que apenas confirma o dado de maior média de público da história do Ferroviário pertencer justamente ao grupo de dirigentes e jogadores que disputaram o campeonato cearense de 1978. Para sempre lembrados.

QUANDO O TIME JÚNIOR DO FERRÃO GANHOU O ESTADUAL DE 1977

296338_140579496032660_563163_n

Juniores do Ferroviário entram em campo no inacabado Castelão com Mirandinha de camisa 9

O atacante Mirandinha foi o primeiro jogador brasileiro a jogar no futebol da Inglaterra. Depois de uma ótima passagem pelo Palmeiras/SP, o cearense nascido Francisco Ernandi Lima da Silva foi defender o Newcastle, em 1987. Dez anos antes, ele foi campeão estadual nos juniores do Ferroviário, que tinha Nojosa como treinador. A foto acima é um registro da entrada do jovem time coral no inacabado Castelão, numa época que os juniores esfriavam o sol na preliminar dos jogos profissionais. Esse time venceu o Ceará na grande final da categoria por 3×2, no PV, no dia 6/10/1977, com o gol do título saindo dos pés do lateral Jorge Henrique, aos 44 minutos do 2º tempo, batendo um pênalti cometido em cima exatamente de Mirandinha, escolhido o melhor jogador da partida.

1977_05222

Jorge Henrique

O campeão dos juniores de 1977 atuou na decisão com Eriverton, Jorge Henrique, Wellington, Zé Carlos e Raimundinho; Pinto (Ayala) e Garrincha; Haroldo, Jacinto, Mirandinha e Ricardo (Manoelzinho). O primeiro gol coral também foi marcado, de pênalti, por Jorge Henrique, e Mirandinha assinalou o segundo gol. O Ceará perdeu a final com Dalmir, Erilson, Júnior (Antero), Marcelo Vilar e Serejo; Tico e Neto; Océlio (Júnior II), Pedrinho, Adailton e Alexandre. Os gols do alvinegro foram de Alexandre e Tico, também através de uma penalidade máxima.

1977_10222

Presidente campeão com Blanchard Girão

Da formação coral, além do próprio Mirandinha, que desde o ano anterior já era aproveitado no time profissional, o lateral Jorge Henrique, o zagueiro Zé Carlos, o volante Pinto, o lateral Ayala, o meia Jacinto e o atacante Haroldo foram várias vezes aproveitados na equipe de cima, sendo que Jorge Henrique e Jacinto ultrapassaram a marca de mais de 200 partidas no time profissional do Ferrão, conquistando títulos importantes, inclusive. Pelo lado alvinegro, o zagueiro Marcelo Vilar tornou-se técnico no final dos anos 80 e chegou a treinar o Palmeiras/SP em 2006. Ele foi treinador do Ferroviário no ano de 1999. O presidente coral, em seu segundo ano de mandato, era Chateaubriand Arrais, que recebeu os cumprimentos do jornalista Blanchard Girão, diretor do jornal do Povo na ocasião, durante a festa de entrega de faixas dos campeões cearenses da categoria.

VIAGEM NO TEMPO REVISITANDO DOIS UNIFORMES DO FERROVIÁRIO

Repare na foto abaixo tirada no dia 07 de setembro de 1977. Sob a gestão do presidente Chateaubriand Arrais, o Ferroviário inovava em seu padrão de uniforme e jogava com camisas com três listras verticais, sendo duas pretas e uma vermelha. Foi num empate que marcou a estreia do ex-craque coral Amilton Melo com a camisa do Ceará e era a primeira vez que o Castelão recebia uma partida de portões abertos. Talvez seja esteticamente uma das mais belas fotografias do clube com os jogadores perfilados. Analise depois outra foto com a reprodução do mesmo padrão de camisas.

Ferrão 1977_Castelão

Ferrão entrou em campo naquela tarde de 1977 para um jogo contra o Ceará com Vander, Bassi, Júlio, Joel Maneca, Arimatéia e Grilo; Vanderley, Kalu, Oliveira Piauí, Danilo e Paulo César Feio

Quatorze anos depois, em 20 de outubro de 1991, o presidente Múcio Roberto repetiu o modelo da camisa coral invertendo apenas as cores das listras, sendo duas vermelhas e uma preta. Mais uma vez o Ceará foi o adversário coral e o jogo também foi empate, graças ao goleiro Banana que defendeu um pênalti de Cláudio Adão. Esse padrão de camisa foi utilizado pouquíssimas vezes durante o campeonato cearense daquele ano.

Ferrão91_122

De novo contra o Ceará no Castelão, o Ferrão posou em 1991 com Aldo, Elmo Casquinha, Toninho Barrote, Valdemir, Adriano e Banana; Paulo Adriano, Arnaldo, Tinda, Paulinho e Cantareli

URUBATÃO CALVO NUNES: A HISTÓRIA NÃO LEMBRA DOS COVARDES

Imagem005

Três nomes na história do Ferroviário: Urubatão Nunes, Chateaubriand Arrais e Ruy do Ceará

Urubatão Calvo Nunes foi bicampeão paulista pelo Santos em 1955 e 1956 como jogador de meio campo. Jogou ao lado de nomes como Pelé, Pepe, Dorval, Coutinho e outros tantos, inclusive na seleção brasileira. Após a aposentadoria como atleta, virou treinador com passagens pelo América/SP, Fortaleza e o próprio Santos em 1977. Chegou para o Ferroviário em 1979 após irregular campanha do time coral no 1º turno do campeonato cearense. Foi apresentado para a torcida no feriado de 1º de maio, com um festival na Barra que recebeu um bom público no amistoso contra os funcionários da cervejaria Antarctica. Desceu de helicóptero no gramado como estrela. Estreou no 2º turno uma semana depois contra o América, uma vitória de virada graças a dois gols do meia Jacinto. Sob o comando de Urubatão, o Ferrão humilhou o Guarany de Sobral (5×2), o Ceará (4×2) e o Fortaleza (5×0). Venceu o turno e colocou o time coral na final.

fac7999

Sob o comando de Urubatão: 5×0 no Fortaleza

O Almanaque do Ferrão resgata acima uma foto histórica: Urubatão Nunes ao lado de Chateaubriand Arrais e Ruy do Ceará, dois ilustres representantes da melhor safra de dirigentes da história do clube. Em Fortaleza, o técnico coral residia no apartamento 611 do decadente Edifício Jaqueline, no bairro nobre do Meireles. De personalidade forte, entregou o cargo após uma derrota para o Ceará no 3º turno. Depois que alguns dirigentes tentaram demovê-lo da idéia e convencê-lo a ficar, entrou em cena a perspicácia do diretor de futebol Ruy do Ceará: “De jeito nenhum, agora quem não quer sou eu“. Ruy contratou o treinador César Moraes, que 40 dias depois sagrou-se campeão cearense. Urubatão não saiu na foto, mas jamais se pode esquecer sua importância nos 23 jogos que comandou o time naquele campeonato.

Urubatão voltou ao futebol alencarino em 1986 como treinador da seleção cearense, que se preparava para o retorno do campeonato brasileiro de seleções, competição esta que acabou nunca sendo realizada em razão da conhecida desorganização que imperou na CBF durante os anos 80. Morreu em 2010 depois de lutar bravamente contra um tumor no cérebro e outro no pulmão. Uma de suas frases mais conhecidas está registrada nos anais do futebol brasileiro e reproduz bem a personalidade que o caracterizou enquanto ser humano e profissional do futebol: “A história não fala dos covardes“. Não fala mesmo. Se não merecesse, Urubatão não estaria há mais de 30 anos na história do Ferroviário.