DE ONDE VIERAM AS COBRAS QUE PICARAM O FERROVIÁRIO?

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Talvez nem o torcedor de memória mais pródiga lembre de onde surgiram as cobras que acabaram de picar o Ferroviário na segunda divisão do campeonato cearense e que, pelo visto, continuam agindo nos bastidores da briga jurídica que virou a competição. Estamos falando de Horizonte e Alto Santo, duas equipes que foram diretamente beneficiadas pelo festival de WO´s ocorrido no certame, cujas pontuações terminaram minimamente superiores aos 43 pontos do Ferrão, conquistados com vitórias e empates verdadeiramente dentro de campo. Não reclame da sua falta de lembrança, mas as referidas cobras foram criadas dentro da própria Vila Olímpica Elzir Cabral. Lembra?

Destaque Léo Jaime no Horizonte

Voltemos a 29 de junho de 2004. Fundado apenas 3 meses antes, o Horizonte Futebol Clube se preparava para disputar pela primeira vez a terceira divisão do futebol cearense e tomava de 6×0 em um jogo amistoso contra o Ferroviário, que por sua vez iria disputar a Série C do campeonato brasileiro. No comando técnico do Horizonte estava Jorge Pinheiro, ex-goleiro coral, que havia sido treinador do próprio Ferrão no início daquela temporada. Sob as bençãos do então presidente Paulo Wágner, o Horizonte tomou emprestado vários jogadores da base coral, inclusive alguns profissionais após a desclassificação do clube no certame nacional, entre eles o zagueiro Cícero César, o atacante Stênio e o meia Júnior Cearense, pra citar apenas os mais famosos. Todo ano, o fato voltava a se repetir com uma leva de jogadores corais emprestados ao Horizonte. Foi assim que a equipe galgou o acesso da terceira para a segunda divisão já em 2005 e fez sua estreia na divisão de elite em janeiro de 2008. Foram menos de quatro anos de um progresso invejável, que contou com injeção financeira preponderante por parte da prefeitura da cidade e tecnicamente baseou-se no empréstimo de jogadores, em sua maioria do elenco do Ferroviário. Foi assim que nomes como o goleiro Jéfferson, o atacante Léo Jaime, o zagueiro Carlinhos, entre outros, subiram a equipe horizontina. No segundo semestre de 2009, com um ano de mandato ainda a cumprir, porém em rota de colisão política que ocasionou a saída coletiva de 8 diretores, o presidente Paulo Wágner renuncia ao cargo e assume a presidência de outra equipe local: o próprio Horizonte, onde permanece até hoje.

Valdemar Caracas entre o Terra e Mar coral

Lembremos também que no segundo semestre de 2007, todo elenco do Ferroviário foi emprestado para que o Terra e Mar, tradicional equipe amadora do futebol alencarino, disputasse a terceira divisão cearense. Seria uma maneira inteligente de movimentar o elenco coral, diziam na época. Até o estádio Elzir Cabral foi cedido para os treinos e jogos oficiais do Terra e Mar. Da equipe do belo bairro do Mucuripe, só as camisas. Foi na época que o Ferroviário virou Terra e Mar que aconteceu um dos fatos mais surreais da história coral. Nos festejos do centenário do fundador Valdemar Caracas, comemorados em vida e com a inauguração de um busto na sede, os jogadores do Ferrão posaram pra fotos vestidos com  a gloriosa camisa coral, entre eles o volante Guto, o meia Jack Chan e os laterais Wescley Lagoa e Teles. Em seguida, desceram as escadas e colocaram o uniforme do Terra e Mar para mais um compromisso pela terceira divisão daquele ano. Visivelmente incomodado com a situação, o ex-diretor Ruy do Ceará, um dos maiores nomes da nossa história, bradou ao microfone: “Dizem que recordar é viver duas vezes. Não é. No nosso caso, recordar é morrer de saudade“. E foi aplaudido de pé pelos presentes. Felizmente – repare na vergonha dessa afirmação – o Terra e Mar não se transformou numa cobra a nos picar. Mostrando a habilidade gerencial do comando coral, o time sucumbiu na competição com derrotas seguidas e foi precocemente eliminado em um campeonato de nível técnico que simplesmente beirou ao ridículo.

Polozzi: técnico do Ferrão/Alto Santo

O modelo de 2007 era a grande solução e foi replicado no ano seguinte, porém com uma novidade que causou frisson internamente: o acordo para apoio econômico vindo da prefeitura de uma cidade que acabara de criar uma nova equipe. Sem calendário e rebaixado para a Série D do campeonato brasileiro, fruto de um desastroso primeiro turno no Estadual de 2008, a solução veio rapidamente com a promessa financeira para todo elenco coral representar o Alto Santo Esporte Clube, uma ideia pactuada entre o então prefeito Adelmo Aquino e o presidente Paulo Wágner, que acabara de reassumir a presidência, após menos de um ano de gestão de seu sucessor Francisco Neto, que renunciara alegando problemas médicos. O treinador? Ninguém menos que Fernando Polozzi, ex-zagueiro da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1978 na Argentina, com o retrospecto da boa campanha no comando do Ferrão durante o segundo turno do Estadual. Mais uma vez, toda estrutura coral foi cedida como barriga de aluguel: funcionários, instalações, comissão técnica e todos os jogadores emprestados. O time do Alto Santo mandava seus jogos longe de casa, dentro do próprio estádio Elzir Cabral. Em ação pela nova equipe, o goleiro Jéfferson, o volante Alberto, o atacante Danúbio, o zagueiro Nemézio, os meias Guto e Leonardo, e uma jovem promessa coral que depois jogou em grandes clubes do país: Siloé. Oito anos depois, talvez ninguém lembre da incompetência coral, travestida de Alto Santo, que fez com que a equipe não conseguisse o acesso para a segunda divisão em mais uma edição de nível técnico horroroso, porém estava criada mais uma cobra dentro da própria Barra do Ceará.

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… a cobra que picou o criador.

Em linhas gerais, foi assim uma parte dos fatos que fizeram com que o Ferroviário se apequenasse no cenário nordestino na última década, e que hoje seja vergonhosamente picado pelas próprias cobras que ajudou a criar. A marca ´Ferroviário´ foi esquecida repetidas vezes para dar lugar a projetos e parcerias descabidas com nomes menores como Horizonte, Terra e Mar e Alto Santo. Perdeu-se calendário e esqueceu-se de brigar por ele. Uma coisa é certa, nunca se viu um torcedor do Ferroviário no estádio torcendo pelo próprio clube travestido pelo uniforme destas equipes, porque no futebol quem ama não muda de time, simples assim.  A temporada de 2016 será decidida nos tribunais, como o blog já destacou. Ironicamente, criador e criaturas entram em conflito num jogo de interesses que, em nenhum momento da segunda divisão, foi limpo. O futuro é incerto e o destino do Ferroviário e das cobras que ajudou a criar está, lamentavelmente, nas mãos do Tribunal de Justiça Desportiva. Dele, espera-se uma única coisa: justiça. E que a Federação Cearense de Futebol se manifeste em favor da lisura da sua própria competição, porque tá feio pra todo mundo.

HOMENAGEM A ROGER E AOS GOLEIROS DA HISTÓRIA CORAL

Semana passada, o goleiro Roger fez grandes defesas na vitória do Ferrão por 1×0 em cima do Crato, no PV. O jogo foi válido por mais uma rodada da segunda divisão cearense. A grande atuação de Roger mereceu um vídeo particular no canal oficial do clube no Youtube. Ele teve seu nome ovacionado pela torcida coral ao final do jogo. Formado nas categorias de base do Corinthians/SP e com boas passagens no futebol do Mato Grosso do Sul, Roger é o 195º goleiro da história de 83 anos do Ferroviário. Hoje, no dia do goleiro, o Almanaque do Ferrão homenageia o atual arqueiro coral, lembrando outros nomes que defenderam o clube, uns com muito sucesso, outros nem tanto.

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Alexandre Pavão em 2004

Que tal começar com Alexandre Pavão? O ex-goleiro do Figueirense/SC chegou em 2004 para o Tubarão da Barra. Fez apenas um jogo, tomou 4 gols, todos eles decorrentes de suas falhas em campo. Ficou tão constrangido com a atuação que pediu pra ir embora no dia seguinte. Por outro lado, como não lembrar de Marcelino, goleiro coral em 170 partidas entre 1969 e 1976, dono da maior marca de um arqueiro até hoje no futebol cearense, com seus 1.295 minutos sem sofrer gols, no ano de 1973. Dia de recordar ainda os lendários Ado e Wendell, consagrados no futebol brasileiro, assim como Clemer, que tiveram a oportunidade de vestir a gloriosa camisa do Ferroviário Atlético Clube.

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Fernando Lira: reserva em 1982

Dia do goleiro também é uma boa oportunidade para lembrar de nomes que não fizeram tanto sucesso, de passagem apagada, que faz os torcedores sequer lembrarem que jogaram no clube. Um exemplo é o Fernando Lira, ex-Sport/PE, reserva de Hélio Show no campeonato cearense de 1982. Foram apenas 3 jogos com a camisa coral. E Osvaldo, Carlinhos e Pedrinho, os três que brigaram pela titularidade no estadual de 1990? Certa vez, o Almanaque do Ferrão até resgatou um vídeo com os três. Lembra? Jorge Hipólito, nos anos 70, foi outro goleiro que também mereceu postagem especial no blog. Houve também o experiente Duílio, ex-Ríver/PI, que atuou em apenas 4 partidas em 1984.

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Walter: titular em 1987

Nesse dia do goleiro, daria até pra fazer uma crônica com todos os 195 ´guarda-valas´ corais, porém é preferível não adotar nenhum critério para mencionar os nomes dessa postagem. A intenção é citá-los apenas de forma aleatória, homenageando todos eles, os campeões, titulares ou não: Alderi, Zé Dias, Gumercindo, Juju, Cavalheiro, Douglas, Edilson José, Aloísio Linhares, Paulinho, Cícero Capacete, Giordano, Edmundo, Serginho, Robinson, Roberval, Miguel, Luís Sérgio, Dênis e Jorge Luiz; os quase nunca lembrados: Jorge Carioca, em 1992, Renato, em 1977, Zenga, em 2000, o indefectível Satanaz, em 1947, Banana, em 1991, Guanair, em 1993, Célio, em 2011, entre tantos outros. Podemos ainda citar Walter, ex-Tiradentes/CE, reserva entre 1985 e 1986, porém titular com grande atuações em 1987. No título estadual do ano seguinte, foi ele quem jogou as primeiras partidas. Enfim, o blog citou apenas alguns nomes entre os 195 goleiros que atuaram nos mais de 3.500 jogos da história coral. Sintam-se todos lembrados e homenageados. Feliz dia do goleiro!

TRÊS GOLEIROS BRIGAVAM PELA CAMISA 1 DO FERROVIÁRIO EM 1990

O Almanaque do Ferrão volta no tempo e resgata uma matéria da TV Verdes Mares de janeiro de 1990. O time coral se preparava para as disputas do campeonato cearense sob a presidência de Vicente Monteiro. Três goleiros disputavam o posto de titular do Ferroviário: os experientes Carlinhos e Pedrinho, bem como o cearense Osvaldo, reserva no título coral estadual dois anos antes. A briga pela titularidade prometia e gerava uma expectativa positiva, bem diferente da campanha coral dentro de campo durante a competição, uma das mais pífias da história, quando conquistou apenas 6 vitórias no campeonato inteiro, sendo 3 delas em cima do fraco Calouros do Ar.

O goleiro Carlinhos foi contratado para o certame, mas não ficou muito tempo na Barra do Ceará após algumas falhas nos treinos e apenas 1 jogo oficial, exatamente o da estreia coral com derrota para o Tiradentes, no Elzir Cabral. Por sua vez, Pedrinho era remanescente da temporada anterior e trazia na bagagem titularidades no Botafogo/PB e Náutico/PE. Jogou 17 partidas pelo Ferrão. Já Osvaldo, que tinha passado pelo Ceará e pelo Calouros, foi o que mais atuou. Foram 41 jogos entre 1988 e 1991. Um detalhe curioso na época é a média de altura de 1,79 m dos três goleiros, uma estatura totalmente inaceitável para o mercado futebolístico nos dias de hoje. Confira a matéria e recorde esses três atletas que passaram pelo Tubarão da Barra.

FERIADO DA REPÚBLICA TEM CARA DE 7×2 CONTRA O BAHIA

A goleada do Ferroviário em cima do Bahia por 7×2 naquele 15/11/2006 foi talvez uma das cinco vitórias mais consagradoras do percurso coral que já dura 81 anos. Foi um jogo memorável diante de um público pagante de 4434 torcedores, muito bom para os padrões históricos do clube. Era o octagonal final da Série C e 4 equipes conquistariam o acesso para a segunda divisão nacional. Sérgio Alves e Fernandinho só não fizeram chover naquele feriado da república. Por alguns dias, acreditou-se que o Ferroviário conquistaria o acesso tamanha a empolgação gerada pelo humilhante placar.

Apesar de não ter um elenco de muitas opções, a onzena principal tinha sempre uma força coletiva muito forte e contava com alguns jogadores de nível diferenciado, tanto é que parte deles vestiu depois as camisas de clubes mais badalados como Santa Cruz, Cruzeiro, Fluminense e São Paulo. A prova das poucas opções no elenco mostram o ótimo volante Marcelo Mendes improvisado na zaga ao lado do jovem Carlinhos, que sequer era titular. Nemézio e Tiago Gasparetto, este em grande forma, jogaram a maioria das partidas da Série C.

O fato é que o jogo 3186 da gloriosa história do Ferrão é aquele tipo de evento que daqui a 50 anos os torcedores presentes continuarão dizendo: “eu estava lá“. É o tipo de vitória que pai conta pro filho e jamais o futebol cearense esquecerá. Foi um troco na mesma moeda dado ao tricolor baiano, que em 1939 havia enfiado 7×3 no Ferrão. Em meio a tantas crises financeiras e técnicas nos últimos 17 anos, desde a saída do presidente bicampeão Clóvis Dias, os 7×2 contra o Bahia em 2006 representaram um verdadeiro oásis no deserto da caminhada coral, uma grande exceção à regra, junto com uma bela campanha no campeonato brasileiro que poderia ter mudado todos os fracassos que se sucederam depois, caso o acesso tivesse sido concretizado.

Uma olhadinha no Almanaque do Ferrão e vemos que os corais formaram com Jéfferson, Marcos Pimentel, Carlinhos, Marcelo Mendes e Júnior Cearense; Glaydstone (Robinho), Dedé e Everton (Diego); Stênio, Sérgio Alves (Claudeci) e Fernandinho. O Bahia foi humilhado para sempre com Darci, Luciano Baiano, Pereira, Laerte (Rodrigão) e Peris; Salvino (Charles), Leandro Leite, Rodriguinho e André Pastor; Ednei (Isac) e Sorato. Os gols corais foram de Sérgio Alves (3), Júnior Cearense, Everton, Fernandinho e Marcos Pimentel. O ex-vascaíno Sorato e Luciano Baiano descontaram para o adversário. Vale a pena recordar os gols do Ferrão no vídeo abaixo cheio de bom humor.